Não foi tão breve mas, cá entre nós, falar de BBB é ainda mais difícil e requer ainda mais esforço do que vê-lo. Até aqui, pelo menos nestas férias, o videogame ganhou quase sempre...
Mas o programa de hoje me deu oportunidade de ver com mais exatidão duas coisas que já vinha dizendo/pensando há algum tempo; sobre uma já escrevi no último post e acrescentarei pouco, sobre a outra, ainda não, e pretendo elaborar mais.
Primeiramente quero observar como os últimos dois paredões desta edição do programa ilustraram melhor ainda a questão do "verdadeiro eu", mais até do que o exemplo que dei anteriormente. Nas duas vezes, quase todos os participantes preocuparam-se muito em mostrar, principalmente dentro do "confessionário" e fora dele, que eram genuínos, que eram, enfim, "eles mesmos". Já falei bastante porque isto é absurdo e impossível; resta tentar saber porque é desejável, e a resposta vai nos jogando logo para a segunda coisa sobre a qual quero falar: ser "eles mesmos" é importante porque "significa" (não significa, mas parece significar, o que, nessa situação, dá no mesmo) ser sincero. E ser sincero, por sua vez, é importante porque, por um lado, é uma característica apreciada, moralmente falando, e o critério para o voto do público passa, em boa parte, por uma avaliação (tosca) de caráter dos participantes; por outro, porque convence o público da genuinidade do próprio programa, a partir de uma alegada não-conivência do participante com qualquer espécie de roteiro-armação.
Isto é na verdade o desdobramento natural do problema do "verdadeiro eu", lançado agora sobre o produto inteiro. Se o programa não é, ele mesmo, genuíno, não pode mostrar nada de genuíno, e genuinidade é o que ele vende; se há armação, não há "reality" - e é sobre isto que quero falar agora. Afinal, BBB é ou não é armado?
A maneira como geralmente esta questão é inicialmente abordada é típica de criança que caiu num truque de mágica bobo e está tentando entender como a moeda poderia ter saído de sua orelha. Fala-se em roteiros e papéis previamente distribuídos, em ordens vindas da produção durante a estadia na casa, e semelhantes. Orgulhosamente, a rede globo disponibiliza o pay-per-view como quem diz "vamos, pode olhar a cartola, a pomba não está escondida aqui dentro" (mas cobrando um extra pela inspeção), e há muita gente que, após, fica convencida de que a mágica é real quando, como de costume, o truque é bem mais evidente do que se imaginou.
No caso, há principalmente dois truques. Um já apontei, mas não custa repetir: o programa é uma armação pela sua própria premissa. É genuíno apenas de forma semelhante a um labirinto de camundongos. Seus participantes são lá postos numa situação extraordinária, na qual são obrigados a assumir um determinado papel e se dispõem, todos, ao mesmo objetivo. E o roteiro do tipo resta-um é explicado inteirinho pelas regras do jogo, a cada semana sendo repetidas as mesmas etapas, com ligeiras variações, até a determinação do vencedor. Todos sabemos desde o começo o tipo de relação que se estabelecerá entre os participantes, e todos sabemos mais ou menos o que vai acontecer, e inclusive sabemos que, no final, um deles ganhará. Só a conjuntura é que muda a cada edição, com uma ou outra surpresas, e com atores diferentes preenchendo os papéis; papéis que, por sua própria natureza, não podem nunca diferir demais um do outro, nem de uma edição para a outra. Parecido com o que ocorre com filmes de ação, comédias românticas, ou - você adivinhou - novelas. Claro, mesmo com o público sabendo que, no final, a mocinha fica com o mocinho, que o herói derrota o vilão, etc., estes gêneros não deixam de ser populares, e o mesmo vale para o reality, que conta com o privilégio de deixar o público escolher quem são os mocinhos. Mas não quero debater o papel da surpresa e da estrutura na narrativa, o que, novamente, seria muita areia para este caminhãozinho.
Voltemos à frase anterior: o público escolhe o vencedor. Escolhe mesmo? Supondo que não haja nenhum tipo de fraude nas eleições do show (e quero deixar bem claro que, embora eu não ache que haja, inclusive pelo que estou prestes a expor, não há nada que o prove com certeza), baseado em que esta escolha é feita? Claro, nas opiniões do público. Mas estas, por sua vez, são formadas pelo que o público vê. E o público vê através das câmeras de televisão, postas lá pela produção, e que mostram, a cada momento, segundo o que é decidido pela produção.
Não há, certamente, nada mais evidente que isto, o que torna o truque ainda mais fabuloso. Acredita-se que o que se vê é genuíno mesmo quando se está assistindo a um programa de tv, gravado num estúdio de tv, num cenário montado pela tv, segundo regras estabelecidas pela tv, com uma programação criada pela tv, e mostrada na tv após uma edição meticulosa! Haveria realidade mais fabricada que esta?
Nem adianta argumentar que a farsa não resiste ao pay-per-view, como se ele não fosse parte do circo - afinal, às gravações de quem você pensa que está assistindo? Quem está escolhendo qual câmera passar, qual microfone ativar...? Claro, o filtro é menor, mas somemos a isto o fato de que ninguém pode acompanhar absolutamente todo o pay-per-view, sob pena de perder a vida (e não só metaforicamente, se levarmos a coisa ao limite), e de que, em nosso país tremendamente desigual, pouquíssimos têm os recursos e a disposição para participar tão ativamente de mais um instrumento de concentração de renda. Resumindo, mais até do que na das câmeras, e muito mais do que na do povo votante, o resultado do BBB está mesmo é na mão da edição, que escolhe meticulosamente o que mostrar, e em qual embalagem mostrar.
E, aliás, que edição! Ela é, disparada, a melhor coisa do programa, a única coisa que o torna tolerável. Assistir às edições do BBB, em especial as de terça, é como ver uma série de trailers ótimos apresentando filmes horríveis, e é admirável o trabalho que conseguem com este roteiro insosso e seu elenco fraco. Também é ótimo porque fica muito evidente que é ela, a edição, que compõe o grosso da direção: ela enquadra cada ator em seu personagem, inclusive designando-lhe por nomes e estereótipos, apresentando e conduzindo cada situação por eles protagonizada.
Se o leitor tem algum problema grave de memória e esqueceu de episódios icônicos como o debate presidencial de 89 entre Collor e Lula, talvez duvide da enorme influência de uma edição tendenciosa na opinião pública. Então peguemos o exemplo mais recente do programa de hoje. Cláudia foi eliminada com maioria esmagadora de votos. Na saída, o apresentador, Bial, a recepcionou pedindo que entendesse o que "nós vimos daqui": seu "namorado", Eliéser, chamando outra participante, Lia, para o paredão, e depois "deixando" que ela, Cláudia, fosse em seu lugar, com a conivência desta. Por esta "covardia", ela foi punida.
Você, que assistiu ao mesmo programa que eu, diga: quantas vezes este aspecto da decisão de Cláudia foi enfatizada pela edição? Dourado, que apontou a "covardia", a repetiu em inúmeras conversas; pelo menos três, se não me falha a memória, foram mostradas. Os acusados responderam algo? Sinceramente, é até difícil lembrar; basicamente não foi mostrado. Acho que em dado momento a edição mostrou Cláudia dizer que, além de ser uma escolha óbvia proteger alguém de quem se gosta (e não é?), ela nem tinha alternativas, já que os outros dois participantes próximos a ela (Dicésar e Michel) já estavam imunes. Rigorosamente falando, o que ela fez de errado? E quem decidiu dar destaque às opiniões que expunham seus atos como errados?
Isto é só um exemplo. O ódio ao eliminado geralmente começa cedo, e dele participa todo o circo armado pela produção, que vai para muito além dela, passando por toda a grade da emissora, a grande mídia impressa, e webmídias; mas todas passam, necessariamente, pela mediação das lentes da casa e da edição de suas imagens, e ela é - como poderia deixar de ser? - tremendamente parcial. Com outros assuntos, podemos sempre ter outras fontes para formar nossas opiniões; com o reality show, a armação é só o começo, e o espectador aceita sempre, implicitamente, ter seu juízo conduzido.
OBS: duro é depois disso ver o jornal acusando este ou aquele candidato de demagogo. Não que não sejam, mas tem mais demagogia nesse mundo do que Big Brother Brasil?
Mostrando postagens com marcador Bela Bosta Bial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bela Bosta Bial. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 2 de março de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
BBB e o "Verdadeiro Eu"
É, em geral, sabido por quem convive comigo que sempre tive asco considerável de reality shows em geral e do BBB em particular. Desde que venho convivendo com minha digníssima esposa, todo início de ano, porém, isto se tornou motivo de conflito - pois entre seus poucos defeitos, está o hábito de assistir assiduamente ao programa, procurando sempre me levar para o lado negro da programação da TV aberta, o que eu recusei com apenas uma ressalva: que um dia eu deveria assistir a esta porcaria para poder falar mal dela com propriedade.
Este dia chegou no início do ano, quando, lá pelo 4º programa, decidi que era a hora de dizer alguma coisa sobre ele por escrito (falar eu sempre falei) com um mínimo de consistência, sentei-me ao lado de minha mulher e passei a fazê-lo sempre que pude, durante o horário do programa. No começo, pensei que falaria apenas ao final do programa; de lá pra cá, sob sugestões, mudei de ideia, e decidi falar ao longo da duração do show, para não deixar escapar o que penso de cada etapa, como novato no assunto; pena ter decidido assim tarde, mas melhor do que a alternativa.
Comecemos do começo: hoje, ao menos em nosso país, Big Brother Brasil é o reality show por excelência, estabelecido como o de maior sucesso, impacto, influência, duração, e, consequentemente, o modelo a ser batido. Mas quem é capaz de explicar o que é um reality show? Consequentemente, quem é capaz de explicar, afinal, a premissa de Big Brother, o jogo?
A resposta aparentemente mais óbvia, "reality show é um programa de televisão que mostra a realidade", é incrivelmente frágil. Reconstituições, documentários e noticiários "mostram a realidade", ao menos no sentido de não pretenderem produzir ficção, criar uma história. Mas todo bom documentarista sabe que esta é uma linha que nunca pode ser definitivamente traçada, e que toda reconstituição ou relato é, na melhor hipótese, a exposição de um (ou mais) ponto(s) de vista, e a criação de uma história que tem por função tal exposição, a partir do registro da realidade mediado pela imagem e pelo som. Até onde registro e realidade são efetivamente equivalentes, aspectos diferentes da mesma coisa, ou iguais, é assunto de uma complexidade assustadora - e, não por acaso, um dos muitos temas tão bem explorados por Orwell (que, dizem, levanta de sua tumba e devora o coração de um telespectador de Big Brother a cada noite de paredão) em 1984. O assunto é bem grande para nosso caminhãozinho, então, ao menos por hora, deixemos este monte de areia em paz, e voltemos ao programa.
Se não é tão óbvio dizer o que é um reality show, é muito simples dizer que alguma coisa o diferencia da maioria dos demais gêneros televisivos. Mas é, de novo, difícil dizer o que é; geralmente, diz-se que é porque não há, supostamente, um roteiro, portanto não há imitação de eventos ideais, não há mimésis, mas somente um jogo realmente acontecendo, no qual participantes supostamente comuns são lançados, e durante o qual são filmados. O reality, então, seria por mostrar, não uma imitação da vida, mas um trecho da vida propriamente dita, da "verdadeira" vida, "genuína" em dois aspectos: primeiro, por ser, supostamente, o retrato de pessoas "comuns" em situações "comuns", e não personagens em situações incomuns e extraordinárias; segundo, porque, não sendo fruto de planejamento e atuação, o programa seria capaz de mostrar a "face oculta" das pessoas, despidas de suas máscaras.
O primeiro aspecto é, por um lado, tão evidentemente falso que sequer parece merecer discussão: ainda que se possa disputar o quanto os participantes de um reality como o BBB sejam "comuns", é evidente que a situação em que se encontram é tão extraordinária quanto deplorável, asquerosa, humilhante, uma gaiola humana na qual se entra voluntariamente pela oportunidade de fama passageira e dinheiro; até porque um programa que não mostre absolutamente nada de extraordinário não tem razão de ser, nem razão para ser assistido. Entretanto extraordinária não pode querer dizer, em absoluto, sem relação com o cotidiano ou sem nenhum sentido forte para o grande público; de fato, por mais de um ângulo o reality show é, por excelência, mimético. Mas volto a isto outro dia.
Já a face oculta... a esse respeito, assistir ao programa só fez reforçar minha opinião de 10 anos atrás, quando pela primeira vez vi um trecho dele; uma ideia que desencavei ao ouvi um comentário da Tessália, ao sair da casa, que é um resumo de boa parte do que é dito em todas as entrevistas ao sair da casa: "Talvez eu não tenha sido eu lá dentro" (resposta só superada em frequência pela sua oposta, "acho que fui eu mesmo demais"). O programa parece mesmo ser essa busca tosca pelo "verdadeiro eu" dos participantes, e o participante que melhor convence estar mostrando o seu "verdadeiro eu" é sempre sério candidato à vitória. É uma lógica falaciosa que parece querer dizer: "se acompanharmos a rotina de alguém em toda sua intimidade, se o acompanharmos tomando banho, cozinhando, enfim, o tempo todo, e numa situação limite, em que seus parâmetros morais são postos à prova, o verdadeiro eu dele virá à tona". Mas falaciosa precisamente no sentido do senso comum, no estilo da expressão "na hora do vamos ver": "na hora do vamos ver, será que ele será honesto? Será que continuará meu amigo?", tratando esta criatura, desta hora, como mais verdadeira do que as outras.
Não é que esta crença não tenha nenhuma razão de ser, mas ela é tremendamente falsa em pelo menos dois níveis. Primeiro, porque ninguém, ninguém age normalmente sabendo que está sendo observado. Procurar alcançar um estado de aparente normalidade enquanto observado é uma das muitas faces do ofício do ator, e mesmo os melhores entre eles sabem que, ainda que convençam seus espectadores de que agem normalmente, não agem, apenas atuam segundo uma normalidade criada para um personagem. O argumento ocasional contra isto é o de que ninguém seria capaz de sustentar uma atuação por meses seguidos, 24 hs por dia, todos os dias; de que, como os seguimos em sua intimidade, etc., o "verdadeiro eu" vai acabar escapulindo e as pessoas, se revelando. E é fato que há uma espécie de revelação, até porque há um exame, muito aprofundado e específico (outro assunto que fica para uma próxima oportunidade), mas isto é muito diferente de uma revelação "espontânea" do "eu", até porque, e aí nosso segundo nível, esse negócio de "verdadeiro eu" não existe.
Não é uma afirmação tão rasa quanto pode parecer, mas que, igualmente, pode ser entendida e explicada com muita simplicidade: não existe "eu verdadeiro" porque ninguém é uma ilha, e a identidade é formada a partir das relações dos outros conosco e suas impressões sobre nós, a começar por coisas primárias como o nome. Somos sempre atores sociais e estamos sempre exercendo papéis sociais, o que significa exatamente modificar nossas ações segundo as expectativas alheias ou, mais precisamente, o que imaginamos que elas sejam; isto vale até mesmo quando estamos sozinhos. Atuar o tempo todo não é nem surpreendente, nem muito menos impossível, mas a regra para todo ser humano. E Tessália, como todos os demais participantes e boa parcela do público, se engana ao dizer que "não foi ela mesma lá dentro", porque, evidentemente, isto não pode ser feito.
Ao mesmo tempo, porém, sua fala traduz algo muito válido: a ideia de que, submetida àquela experiência, ela se viu tomando atitudes muito diversas das que considerava próprias à sua pessoa, isto é, que falhou em manter um sentimento de identidade ao longo do processo e, mais importante, falhou em passar esta imagem de identidade coesa e desejável para o grande público. Pois, evidentemente, é isto acima de qualquer outra coisa que define o vencedor: a imagem que ele consegue passar de sua personalidade, de seu caráter, para o espectador, de maneira que leve a uma identificação mútua, à torcida e, consequentemente, ao voto. É, resumindo, a habilidade de parecer uma "boa pessoa" mesmo numa situação em que a faca nas costas é obrigatória; um jogo de convencimento e de produção de aparências.
Não é isto que torna BBB uma forma de entretenimento deplorável. A vida em sociedade é sempre produção de aparências. O problema é o tipo de aparência que ela preza e a situação extraordinária que estabelece como "normal" - precisamente, o tipo de situação na qual uma facada nas costas é a regra invariável e a hipocrisia é a norma.
___________________________________________
Falo mais em breve...
Este dia chegou no início do ano, quando, lá pelo 4º programa, decidi que era a hora de dizer alguma coisa sobre ele por escrito (falar eu sempre falei) com um mínimo de consistência, sentei-me ao lado de minha mulher e passei a fazê-lo sempre que pude, durante o horário do programa. No começo, pensei que falaria apenas ao final do programa; de lá pra cá, sob sugestões, mudei de ideia, e decidi falar ao longo da duração do show, para não deixar escapar o que penso de cada etapa, como novato no assunto; pena ter decidido assim tarde, mas melhor do que a alternativa.
Comecemos do começo: hoje, ao menos em nosso país, Big Brother Brasil é o reality show por excelência, estabelecido como o de maior sucesso, impacto, influência, duração, e, consequentemente, o modelo a ser batido. Mas quem é capaz de explicar o que é um reality show? Consequentemente, quem é capaz de explicar, afinal, a premissa de Big Brother, o jogo?
A resposta aparentemente mais óbvia, "reality show é um programa de televisão que mostra a realidade", é incrivelmente frágil. Reconstituições, documentários e noticiários "mostram a realidade", ao menos no sentido de não pretenderem produzir ficção, criar uma história. Mas todo bom documentarista sabe que esta é uma linha que nunca pode ser definitivamente traçada, e que toda reconstituição ou relato é, na melhor hipótese, a exposição de um (ou mais) ponto(s) de vista, e a criação de uma história que tem por função tal exposição, a partir do registro da realidade mediado pela imagem e pelo som. Até onde registro e realidade são efetivamente equivalentes, aspectos diferentes da mesma coisa, ou iguais, é assunto de uma complexidade assustadora - e, não por acaso, um dos muitos temas tão bem explorados por Orwell (que, dizem, levanta de sua tumba e devora o coração de um telespectador de Big Brother a cada noite de paredão) em 1984. O assunto é bem grande para nosso caminhãozinho, então, ao menos por hora, deixemos este monte de areia em paz, e voltemos ao programa.
Se não é tão óbvio dizer o que é um reality show, é muito simples dizer que alguma coisa o diferencia da maioria dos demais gêneros televisivos. Mas é, de novo, difícil dizer o que é; geralmente, diz-se que é porque não há, supostamente, um roteiro, portanto não há imitação de eventos ideais, não há mimésis, mas somente um jogo realmente acontecendo, no qual participantes supostamente comuns são lançados, e durante o qual são filmados. O reality, então, seria por mostrar, não uma imitação da vida, mas um trecho da vida propriamente dita, da "verdadeira" vida, "genuína" em dois aspectos: primeiro, por ser, supostamente, o retrato de pessoas "comuns" em situações "comuns", e não personagens em situações incomuns e extraordinárias; segundo, porque, não sendo fruto de planejamento e atuação, o programa seria capaz de mostrar a "face oculta" das pessoas, despidas de suas máscaras.
O primeiro aspecto é, por um lado, tão evidentemente falso que sequer parece merecer discussão: ainda que se possa disputar o quanto os participantes de um reality como o BBB sejam "comuns", é evidente que a situação em que se encontram é tão extraordinária quanto deplorável, asquerosa, humilhante, uma gaiola humana na qual se entra voluntariamente pela oportunidade de fama passageira e dinheiro; até porque um programa que não mostre absolutamente nada de extraordinário não tem razão de ser, nem razão para ser assistido. Entretanto extraordinária não pode querer dizer, em absoluto, sem relação com o cotidiano ou sem nenhum sentido forte para o grande público; de fato, por mais de um ângulo o reality show é, por excelência, mimético. Mas volto a isto outro dia.
Já a face oculta... a esse respeito, assistir ao programa só fez reforçar minha opinião de 10 anos atrás, quando pela primeira vez vi um trecho dele; uma ideia que desencavei ao ouvi um comentário da Tessália, ao sair da casa, que é um resumo de boa parte do que é dito em todas as entrevistas ao sair da casa: "Talvez eu não tenha sido eu lá dentro" (resposta só superada em frequência pela sua oposta, "acho que fui eu mesmo demais"). O programa parece mesmo ser essa busca tosca pelo "verdadeiro eu" dos participantes, e o participante que melhor convence estar mostrando o seu "verdadeiro eu" é sempre sério candidato à vitória. É uma lógica falaciosa que parece querer dizer: "se acompanharmos a rotina de alguém em toda sua intimidade, se o acompanharmos tomando banho, cozinhando, enfim, o tempo todo, e numa situação limite, em que seus parâmetros morais são postos à prova, o verdadeiro eu dele virá à tona". Mas falaciosa precisamente no sentido do senso comum, no estilo da expressão "na hora do vamos ver": "na hora do vamos ver, será que ele será honesto? Será que continuará meu amigo?", tratando esta criatura, desta hora, como mais verdadeira do que as outras.
Não é que esta crença não tenha nenhuma razão de ser, mas ela é tremendamente falsa em pelo menos dois níveis. Primeiro, porque ninguém, ninguém age normalmente sabendo que está sendo observado. Procurar alcançar um estado de aparente normalidade enquanto observado é uma das muitas faces do ofício do ator, e mesmo os melhores entre eles sabem que, ainda que convençam seus espectadores de que agem normalmente, não agem, apenas atuam segundo uma normalidade criada para um personagem. O argumento ocasional contra isto é o de que ninguém seria capaz de sustentar uma atuação por meses seguidos, 24 hs por dia, todos os dias; de que, como os seguimos em sua intimidade, etc., o "verdadeiro eu" vai acabar escapulindo e as pessoas, se revelando. E é fato que há uma espécie de revelação, até porque há um exame, muito aprofundado e específico (outro assunto que fica para uma próxima oportunidade), mas isto é muito diferente de uma revelação "espontânea" do "eu", até porque, e aí nosso segundo nível, esse negócio de "verdadeiro eu" não existe.
Não é uma afirmação tão rasa quanto pode parecer, mas que, igualmente, pode ser entendida e explicada com muita simplicidade: não existe "eu verdadeiro" porque ninguém é uma ilha, e a identidade é formada a partir das relações dos outros conosco e suas impressões sobre nós, a começar por coisas primárias como o nome. Somos sempre atores sociais e estamos sempre exercendo papéis sociais, o que significa exatamente modificar nossas ações segundo as expectativas alheias ou, mais precisamente, o que imaginamos que elas sejam; isto vale até mesmo quando estamos sozinhos. Atuar o tempo todo não é nem surpreendente, nem muito menos impossível, mas a regra para todo ser humano. E Tessália, como todos os demais participantes e boa parcela do público, se engana ao dizer que "não foi ela mesma lá dentro", porque, evidentemente, isto não pode ser feito.
Ao mesmo tempo, porém, sua fala traduz algo muito válido: a ideia de que, submetida àquela experiência, ela se viu tomando atitudes muito diversas das que considerava próprias à sua pessoa, isto é, que falhou em manter um sentimento de identidade ao longo do processo e, mais importante, falhou em passar esta imagem de identidade coesa e desejável para o grande público. Pois, evidentemente, é isto acima de qualquer outra coisa que define o vencedor: a imagem que ele consegue passar de sua personalidade, de seu caráter, para o espectador, de maneira que leve a uma identificação mútua, à torcida e, consequentemente, ao voto. É, resumindo, a habilidade de parecer uma "boa pessoa" mesmo numa situação em que a faca nas costas é obrigatória; um jogo de convencimento e de produção de aparências.
Não é isto que torna BBB uma forma de entretenimento deplorável. A vida em sociedade é sempre produção de aparências. O problema é o tipo de aparência que ela preza e a situação extraordinária que estabelece como "normal" - precisamente, o tipo de situação na qual uma facada nas costas é a regra invariável e a hipocrisia é a norma.
___________________________________________
Falo mais em breve...
Assinar:
Postagens (Atom)